O apartamento era antigo, sem elevador, numa rua transversal de um bairro residencial da zona sul daqui do Rio. A sala tinha uma janela grande, da qual se via uma parte do morro que ficava nos fundos, com destaque para uma enorme figueira cujos galhos quase batiam no vidro da janela. O chão era de taco, os móveis eram todos comprados em brechós. Havia até um aparedor muito bonito, talvez jacarandá, em cima do qual ficava o telefone sem fio e um jarro de vidro roxo.
Não sei por que prestava atenção nesses detalhes. Não sei, muito menos, como foi que acabei chegando ali, sentado com os punhos amarrados naquela poltrona pé-de-palito recém-estofada de tecido creme. Sim, haviamos conversado, haviamos falado coisas íntimas, e havia um tesão. Mas mesmo assim, estar naquela situação, ofegante e excitado, uma ruptura na monótona vida de quem foi três vezes ao puteiro e fora isso só transou comportadamente com namoradas, tudo isso era deliciosamente improvável.
Sempre fui bonito, mas sempre fui tímido. Perdi a virgindade tarde, aos 21 anos, com uma namorada linda, com a namorada mais linda que eu já tive, filha de europeus, a pela branca, os olhos muito escuros, um sonho. Havia mentido para ela, fiz acreditar que era experiente e que teriamos uma deliciosa noite de prazer. Um grande erro. Eu não sabia o que fazer, a noite foi triste, e ela chorou. De lá para cá tive muitas outras mulheres e fui descobrindo, aos poucos, o sexo, as mulheres. Os movimentos, as palavras, a força, o cheiro, a desinibição, o meu próprio corpo, até o ponto em que hoje estou. Um ponto de descobertas, por incrível que possa parecer alguém resolver se descobrir aos 37 anos. Mas nunca é tarde.



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