
A parte que eu mais gosto em você é a parte que foge completamente ao meu controle.

A parte que eu mais gosto em você é a parte que foge completamente ao meu controle.
“All men have secrets and here is mine
So let it be known
For we have been through hell and high tide
I think I can rely on you …
And yet you start to recoil
Heavy words are so lightly thrown
But still I’d leap in front of a flying bullet for you
(…)
The devil will find work for idle hands to do
I stole and I lied, and why ?
Because you asked me to !
But now you make me feel so ashamed
Because I’ve only got two hands
Well, I’m still fond of you, oh-ho-oh”
Ou vocês acham o quê ? Que seu lindo namorado não passa horas vendo pornografia barata? Que seu amorzinho nunca se masturbou pensando nos peitos da sua amiga ? Acham isso grosseiro ? Pois estou pegando leve. Sim, eles amam vocês, não duvidem da sinceridade das palavras. Mas nada é simples. Deus mesmo, que devia ser de uma obviedade à toda prova, é de uma complexidade tremenda na visão que Dele têm seus sacerdotes, teólogos e prosélitos, e nem mesmo o misticismo de uma Santa Teresa D´Ávila está ao alcance das páginas da revista dominical do seu jornal.
O equilíbrio entre o pecado e a santidade é baixo, dizia Santo Tomáz – ou assim eu li. Equilibrar-se entre a demanda do desejo bruto e a aspiração ao aplauso é impossível. Para o inferno o aplauso ! E para um círculo ainda mais baixo e terrível do inferno aqueles que fazem do desequilibrio seu lema de inconformados ! Dostoiévski não está mais aqui e não vai escrever nada sobre tudo aquilo que vocês e eu passamos dias e semanas pensando e remoendo, como se fosse o supra-sumo do sofrimento humano só porque sua mulher transou com alguém numa bela tarde em que você por acaso estava bebendo com amigos e desejando insidiosamente a estagiária.
Respeitemos o sofrimento. Porque um dia, a pessoa mais especial queria perguntar para mim tudo o que se pode perguntar a homem. “Tudo-tudo-tudo”, ela disse. E ela não me perguntou mais nada. E foi por isso que ela me matou, enforcando-me bêbado. Eu me lembro de tudo. Se eu sou um fantasma, que meu espectro ultrajante e disforme – mas não menos disforme que sua concretude pretensiosa – que meu fantasma passe a eternidade na busca do único bem realmente valioso que Deus nos deu: a verdade. Tanto melhor se a verdade aparecer enovelada no cinismo e na hipocrisia, porque disso eu entendo. Acreditem.
Achem o que quiserem. Escolham a versão que mais for em conformidade com seus desejos em relação a isso tudo. Não peço nada, nem quero nada. Quero não querer nada. E para isso, minha única – e miserável – solução é jogar as palavras nessa tela, na esperança de que, lendo-as, eu mesmo chegue a alguma improvável conclusão.